terça-feira, 21 de fevereiro de 2040

Dias finais da minha vida

O meu nome é Joaquim Nando

Há sempre quem me pergunta como era minha feição, vida na minha adolescência, porque o que parece é que o tempo não se passou, mas... se enganam porque vivi com intensidade porém fiquei fatigado e com sequelas com esse passar do tempo e muitas coisas aconteceram.
O fumo sempre a acompanhar o decorrer da minha vida, onde o refugio do nervosismo sempre a acompanhar, evidentemente que as aparências enganam sempre tive um ar juvenil e robusto.
Lembro-me dos dias como hoje, mesmo com os problemas interiores não deixava transparecer, queria curtir a vida beber e sentir o prazer da neblina que o cigarro fazia ao meu comando.
Penso como seria minha vida hoje se não bebesse e nem fumasse, bem... não importa, que me adianta chorar por águas passadas.

Virada de ano de 1970 que dia, não havia horas de descanso amigos e namorada que noitada, tive a beber e a fumar a noite inteira, minha namorada da época que nem me recordo o nome direito, acho que se chamava Debora, nao tenho a certeza nao estava mais a me aguentar, dizia que eu bebia mais que seu veiculo, que por um acaso não era algo novo, já tinha alguns anos de uso e bebia gasolina demais.
Me passava sermão directo, não havia dias que não estava a refilar comigo, porém foi passagem em minha vida, resolvi partir para uma academia essa acima que podem ver, porque eu cada vez estava a me definhar, no início era porreiro, curtia a brava me sentia forte e cheio de vida.
Tinham vezes que meus amigos me pegavam a eu próprio a me olhar no espelho a admirar meu corpo, pow que dias bem vivido que não voltam atrás.
E assim se passou o tempo como muita farra, e amizades intermináveis, semana passada fui neste dias fatigante ao consultório medico para mais um dia de sofrimento , para quem era jovem e cheio de saúde, hoje fraco e problemático e principalmente sem os amigos com quem eu achava que ia terminar esse final de vida. Fiquei a saber pelo Dr. Pedro, que meu problema é pior que banco falido, estou quase a fechar o barrio obrigatoriamente, tenho dias contado logo agora que queria curtir minha reforma.

Estou a sofrer de cancro pulmonar causado pelo cigarro e a bebida e me causou outras sequelas, achei que os copos seriam meus amigos também mas foi os primeiros a querer me derrubar, hoje só tenho uma alternativa, viver esses restantes de dias, e contar minha vida no blog.
Posso morrer, mas morro com dignidade, passo hoje minha vida a revela como vivi, e digo-vos o que causou e que pode acontecer em sua vida futura se não se cuidar, bem... claro a escolha é sua.

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

Em como a vida se tornou um gajo estranho

O dia acabou-lhe mais cedo. De facto, nos últimos tempos era cada vez mais assim: muito para além da existência triste que Joaquim Nando levava desde a célebre noite que ficou conhecida como a-noite-do-livro-preterido (livro que ironicamente tinha bastantes coisas em comum com ele), as coisas na chamada "vida geral" tinham mudado bastante. Os concertos a que anos antes assistia frequentemente escasseavam cada vez mais. As bandas de putos eram agora lançadas através de home-videos em páginas ranhosas da net , capazes de espalhar música do Butão ao Malaui mas falhadas, porém, na verve que não transmitiam. Não bastasse isto, os próprios dos seguidores dos putos achavam-se agora no direito de também terem alguma coisa a dizer, escrevendo crónicas infindáveis sobre a fantástica performance da noite anterior das Romantic Filthy Whores na casa-de-banho do número 16 da Rua Mouzinho da Silveira. Usavam expressões como "a maior lição de punk-pós-modernista-metal-mosh-core desde 2015" ou "o conjunto de coxas mais desenvolutas de sempre numa banda de gajas", ignorando o que seria um bom bafo de calor produzido em concertos no antigo estádio de Alvalade acompanhado de música de jeito.
Como existencialista que sempre foi, Joaquim Nando não ignorava a origem dos sinais do tempo. Toda a situação em que se encontrava fora gerada pela célebre "democratização da cultura" propagandeada pelos primórdios da internet; sempre que pensava que ele próprio tinha imaginado este desfecho, pensava que a frustração era um sentimento nobre quando justificada por premonições. Isto de estarmos todos em comunidade é uma cena fodida, pensava. É por estas e por outras que sempre concordei com a democracia selectiva. Se ela existisse, quem sempre soube de música continuaria a escrever sobre o que sabe. Não tinham de vir para aqui estes palhaços cibernautas armados em cronistas musicais.
Os seus pensamentos relacionados com a democracia foram crescendo com os seus dramas pessoais. Recordava muita vez a questão democrática que lhe tinha mudado a vida: a noite em que Cláudia se tinha despido para Serge Gainsbourg, partilhada democraticamente com cerca de cinco mil melómanos. Lembrava-se, com um nó no estômago, do momento em que ela saltou para o palco quando soou a Lémon Inceste e do momento em que ele desatou a chorar, quando o je t'aime tellement, je t'aime plus que tout não lhe foi dirigido. A partir desse momento descobriu que o seu objecto de adoração tinha começado a ser adorado por tantos outros milhares de pessoas. Numa questão de minutos, a proporção de pessoas que comentava a actuação de Cláudia era igual ao nível de desinteresse de Joaquim Nando nela. O mesmo se passava agora na sua relação com a música: já não tinha o mesmo interesse porque já não podia falar, em exclusivo, sobre ela.
E era nesses dias que acabavam mais cedo que Joaquim Nando se lembrava sempre do episódio do concerto, bem como a angústia, desalento e desesperança que ele carregava. Fazia uma analogia bizarra da sua vida actual com esse episódio - o do dia em que deixou de gostar de Serge Gainsbourg para preferir o Scott Walker. O dia em que deixou de acreditar no amour plus que tout para preferir as girls from the streets.
A sua vida era, para sempre e agora, assim.

segunda-feira, 30 de abril de 2007

Vou ficar para tio

Uma das vantagens de ter decidido (ou de me ter deixado levar) permanecer na adolescência a fundo perdido, é manter contactos com o que supostamente vai acontecendo nesta capital de província exausta e formatada. Depois de muitas noites iguais a tentar ressuscitar becos que já não existem, e de um dia de merda a teclar alternadamente nos caracteres e no back-space, um velho amigo propôs-me, disse-me ele, qualquer coisinha um bocado mais fantasiosa, talvez até cinematográfica, por um par de horas. Qualquer coisa com o nome pomposo (entre Lewis Carroll e Pedro Paixão, que é como quem diz, que o melhor e o pior podem acontecer) de The Wonderland Club. Lá segui eu ontem para o Cefalópode, lá para os lados do Castelo de S. Jorge (aparentemente a coisa funcionava antes no Cabaret Maxime, que feliz ou infelizmente deixou de funcionar até às más horas que, no fundo, até são as boas horas pelas boas e pelas más razões), um bocadinho mais cheiroso ma non tropo. A coisa até que não era má de todo, toda a gente sabia que a ficção era a prazo, a Lady Bambi e o Witchell eram bons anfitriões e a roliça Mirelle sabia entreter os olhos de quem ia abanando a anca ao som de música vintage (seja lá o que esse neologismo queira dizer). O problema é que aquilo de wonderland e de cabaret tinha muito pouco. Uns tantos freaks, muita miudagem com as roupas de El Dorado e pouco mais compunham o suposto cenário. Depois de um par de whiskys ainda me dei ao trabalho de meter conversa com umas carinhas mais larocas, que me olharam como se eu fosse o papá libidinoso. Que coisa! No meu tempo não era assim (uups!), quando a Cláudia se veio meter comigo no concerto do Gainsbourg tinha eu os meus vinte aninhos e não achei que ela fosse a tia solteirona devoradora de narcisinhos. Acabei a noite em frente ao sofá a beber cházinho de tília. Se calhar vou ter mesmo que rever os meus planos de poupança existenciais.

segunda-feira, 2 de outubro de 2000

Novas velharias

Tenho vindo a descobrir, a contar os anos pelos dedos das mãos, que estou a envelhecer, pelo menos nos meus gostos musicais. Acho que desde que os Tindersticks lançaram o "Curtains", há mais de três anos, que não me chegou nada que me enchesse os ouvidos. Qualquer dia pareço o João Lisboa, à procura do novo poeta beatnik de guitarra na mão ou dos novos vagabundos australianos exilados nos subúrbios de Londres. Mas eis que hoje, ao carregar no play, senti outra vez uns calafrios na espinha com os baixos sintetizados de uma nova banda inglesa chamada Goldfrapp (heterónimo também da sua vocalista, Allison). Ainda estou um bocado desconfiado, confesso, porque me lembro, não sem ressentimento, do meu entusiasmo desmedido com o movimento de Bristol de há uns tempos atrás (o do carimbo "trip-hop") e particularmente com aquele simulacro de big band que eram os Portishead, e que só mais tarde me dei brutalmente conta (uma amnésia vergonhosa para quem se propõe ser comentador musical) de que pouco mais eram que um bom pastiche da Shirley Bassey. Antes que me aconteça o mesmo com esta aparente pérola dos Goldfrapp, "Felt Mountain", aqui deixo aquela que me parece ser uma das melhores músicas pop dos últimos anos, com arranjos de banda sonora de soap opera (ou será "sopa opereta"?!) dos anos 70, melodias à la Ennio Morricone e falsetes em cristal quase a quebrar. Um equilíbrio instável na linha ténue que separa a genialidade da farsa e o requinte do mais puro kitch - aí talvez onde se encontra quase tudo o que vale a pena: uma "Utopia", portanto.

domingo, 18 de agosto de 1996

Que Xutice

Detesto cerveja. Talvez por causa deste facto não entenda o conceito de concertos de queimas e todas as idiotices universitárias a elas subjacentes. Tal como a idiotice da Xutice. O que é a Xutice? É o fenómeno de massas que ocorre em muitas pessoas de várias faixas etárias e sociais e que os leva a gostar de Xutos e Pontapés, apoiá-los, cruzar as mãos em X, meter um lenço ao pescoço para imitar aquele gordo patético de subúrbio transformado em cantor de violas acústicas para adolescentes imberbes e ex pseudo-punk de seu nome Tim. Tim? O que é isso? O único Tim que eu conhecia era o cão dos 5. E tinha melhor voz que este gordo. E o herói da guitarra, o Zé Pedro, Keith Richards de 14ª categoria? Zé Pedro, vai-te mas é embebedar longe com o teu colega de vómitos, o Jorge "Portugal Portugal" Palma!
Há ainda um gajo chamado Cabeleira que, felizmente, nunca fala e um tipo com outro nome muito inteligente, Kalu, saído directamente dos cro-magnons na linha da evolução das espécies.
Bem, adiante. Os miúdos cantam alegremente "a casinha" nas festas universitárias, no Avante e outras festas do género. E eu? E fico a olhar para o palco, impávido, embasbacado.
Detesto cerveja. Talvez seja por isso que não grite a plenos pulmões: "estupidez gananciosa, leva-te daqui para a cova!"

quinta-feira, 21 de outubro de 1993

Mon Bebe

Um dos meus divertimentos preferidos é falar do concerto do Serge Gainsbourg à minha namorada, a Verónica. Tudo se tornou mais divertido desde que ele morreu. Antes, ela ainda tinha esperança, "é uma questão de tempo até o homem voltar". No dia seguinte à sua morte, mostrei à Verónica o artigo que havia escrito como obituário e que tanto trabalho me dera. "Vês, ma cherrie?, afinal o Sérgio não volta a dar concertos por cá..."
Na capa do jornal, uma foto e a legenda: "je suis venu te dire que je m'en vais". Sim, eu sei, um título nada original, mas o editor do meu pasquim musical era um cavalheiro de vistas curtas e a sua "querida esposa" gostava muito dessa canção...
"Oh, Joaquim, és tão cruel!", choramingou a minha querida Verónica....
"Vá lá", ripostei..."ainda podes ver um concerto de um Gainsbourg....talvez a filha dele, a Charlotte, ainda edite um disco"!
Não consegui conter os risos.
"Parvo", disse a Verónica, amuando. "com aquela voz de cana rachada com que cantava o Lemon Incest?....mais depressa a Manuela Moura Guedes se torna jornalista...".
Rimo-nos. Beijei-a. Afinal, até gosto da miúda. Tem um bom par de mamas, não me chateia e acha-me o máximo. Depois, a Verónica, olhou para mim, e perguntou pela 50ª vez:
- Joaquim, amor, conta-me como foi o concerto do Serge.....
- Bem, querida, foi numa fria noite de inverno, e o cabaré Maxime estava ao rubro...

quarta-feira, 12 de fevereiro de 1992

Uma notícia catastrófica

Horror! Um dos meus maiores medos tornou-se realidade.....Muitas noites acordei, suando em bica, com o coração a palpitar descompassadamente....mas depois, via que era apenas um pesadelo...e voltava a adormecer, mais descansado, mas ainda com a luz acesa, para ver bem os discos da colecção pessoal. Sonhei vezes sem conta que o Rui Veloso ia voltar a editar, e em formato de duplo álbum. Não bastava o facto de ter de ouvir de novo aquela voz monocórdica e irritante, e aquelas letras infantis do Carlos Tê....teria de escutar tudo isso em dose dupla!
Pois é, caros leitores, o pesadelo tornou-se realidade! Rui Veloso está de volta....e em dose dupla! O pesadelo chama-se "Mingos e os Samurais" e é um "álbum conceptual" (ui! A palavra causa-me arrepios! O homem pensa o quê!Que estamos nos anos 70??), sobre uma banda de garagem portuguesa, no final dos anos 60.
Já não ouvíamos Rui Veloso desde há 5 anos, com o Porto Côvo e outras idiotices do género. E não o ouvíamos por bons motivos. Rui! Tu não prestas, tá bem? És foleiro, tal como o teu bigodinho de inícios de carreira. E não inventaste o rock português!
Voltando aos Mingos e Bacanais. Nas rádios já andam a passar idiotices como "não há estrelas no céu" ou uma música sobre o Rivoli, com uma letra que reza o seguinte: "mesmo sabendo que não gostavas empenhei o meu anel de rubi para te levar ao concerto que havia no Rivoli".
Brilhante, Rui, que poeta do caraças!
E livremo-nos dos álbuns conceptuais! Qualquer dia, ainda há bandas como....sei lá....os Mão Morta, a fazer um álbum conceptual sobre....sei lá....uma coisa absurda....o situacionismo!